Aplicações clínicas
Têm sido descritas diversas aplicações de interesse clínico decorrentes da análise do ADN fetal que circula no plasma materno, em alternativa aos métodos invasivos de diagnóstico pré-natal, que comportam, geralmente, riscos de perda fetal. No futuro poderá ser possível o diagnóstico não invasivo de uma série de doenças, tais como a
ß-talassémia (tipo hereditário de anemia), a
acondroplasia (nanismo) e até a
Síndrome de Down (Norbury G & Norbury CJ, 2008, Hahn S et al, 2008, Abdel-Fattah S, 2006). Acredita-se que, no futuro, exames deste tipo venham a substituir a amniocentese (colheita de amostra de líquido amniótico) para avaliação do estado do feto.
Determinação do grupo RhD fetal
A avaliação do grupo sanguíneo RhD do feto nas circunstâncias em que a mulher grávida é RhD negativa, com risco de doença hemolítica do recém-nascido é, actualmente, uma das aplicações clínicas de maior relevo (Finning K et al, 2008, Daniels G et al, 2007, Finning K et al, 2004). Cerca de 10 - 15 % das mulheres grávidas são RhD negativo, recebendo, de um modo geral, tratamento profiláctico com imunoglobulina humana, para evitar que os anticorpos anti-RhD que eventualmente são produzidos pela mãe possam reagir contra os eritrócitos do feto. No entanto, caso o grupo RhD fetal seja também negativo, a profilaxia com imunoglobulina é desnecessária, podendo ser evitada. A determinação do grupo RhD fetal através de procedimentos não invasivos permitirá restringir a profilaxia ante-natal às grávidas RhD negativas portadoras de fetos RhD positivo.
Hiperplasia congénita da supra-renal
Uma outra aplicação decorrente do conhecimento do sexo fetal é nas situações de grávidas portadoras de hiperplasia congénita da supra-renal (doença autossómica recessiva que atinge 1 em cada 5000 indivíduos) e em que a identificação de um feto do sexo masculino tornará desnecessário o tratamento da grávida com corticóides (Chiu RWK et al, 2002a). O tratamento usual em famílias de risco para a hiperplasia congénita da supra-renal consiste na administração à grávida de dexametassona, preferencialmente a partir da 8ª-9ª semana de gestação, numa altura em que não é ainda possível conhecer o sexo do feto. Apesar do tratamento se mostrar efectivo no caso de fetos afectados do sexo feminino, em muitas situações a exposição precoce a dexametassona é desnecessária, pelo que a determinação precoce do sexo fetal por análise do ADN fetal no plasma materno pode constituir uma primeira abordagem para a detecção e acompanhamento destes casos.
Pesquisa de doenças genéticas herdadas por via paterna
É possível, através da análise do ADN fetal que circula livre no plasma materno, identificar alelos de origem paterna (não existentes normalmente no sangue materno) e desta forma identificar fetos em risco de desenvolvimento de doenças genéticas transmitidas pelo pai. Foi relatada a detecção de um alelo de origem paterna com uma mutação associada à Distrofia Miotónica através da análise no plasma materno do ADN fetal (Amicucci P et al, 2000). Também em gravidezes de risco para a fibrose quística ou beta-talassemia foi descrita a avaliação pré-natal do feto por análise de ADN fetal no plasma materno (Tungwiwat W et al, 2007, González-González MC et al, 2002; Chiu RWK et al, 2002b). Noutra situação foi pesquisada a mutação no gene que está na origem da acondroplasia (nanismo) no ADN fetal obtido a partir do sangue materno (Li Y et al, 2007).
Avaliação do Risco de Pré-eclâmpsia
Esta patologia afecta 6 a 8 % das mulheres grávidas e manifesta-se por elevada pressão arterial e edema no início da 2ª metade da gravidez. Está descrito que mulheres grávidas sintomáticas com pré-eclâmpsia têm cerca de 5x mais ADN fetal na circulação sanguínea. Também mulheres assintomáticas que posteriormente desenvolveram pré-eclâmpsia possuem no plasma uma quantidade mais elevada de ADN fetal plasmático (Leung TN et al, 2001; Levine RJ et al, 2004). Assim, a quantificação de ADN fetal no plasma materno pode ser um factor de prognóstico de pré-eclâmpsia em gravidezes de risco.
Rastreio de Trissomias
Um aumento significativo da concentração de ADN fetal na circulação materna, foi observado em gravidezes de fetos com anomalias cromossómicas, como
trissomia 21 e
trissomia 13. Esta correlação directa poderá ter implicações para o rastreio pré-natal de rotina destas aneuploidias, que, no futuro, poderá incluir a quantificação de ADN fetal no painel de análises efectuadas à grávida como marcador de prognóstico para situações de risco (Hahn S et al, 2008, Lo YMD et al, 2007, Farina A et al, 2003, Zhong XY et al, 2000).