Introdução
A confirmação da presença de células fetais na circulação materna despoletou um enorme interesse na comunidade científica actual, tendo em vista o potencial de desenvolvimento de metodologias de diagnóstico pré-natal mais seguras, ou mesmo, totalmente inócuas. Esta possibilidade, no entanto, exige a colheita de células nucleadas de origem fetal, as quais estão presentes na circulação materna, embora em pequena quantidade. Dada esta limitação e a ausência de marcadores específicos destas células, têm sido exploradas outras abordagens que permitem a análise de produtos fetais.
Em 1998, Lo YM e colaboradores demonstraram a existência de ADN fetal livre no plasma de mulheres grávidas saudáveis através da quantificação desse ADN pela técnica de PCR (reacção de amplificação em cadeia). Surpreendentemente, e ao contrário das células fetais intactas que se encontram no plasma materno (1 célula por cada ml de sangue materno), foram encontradas elevadas concentrações de ADN fetal, perfazendo cerca de 5% do total de ADN livre na circulação sanguínea da grávida. A origem do ADN fetal que circula livre no plasma materno é ainda desconhecida, mas muito provavelmente este ADN tem origem na placenta (Wataganara T e Bianchi DW, 2004).
Ao contrário das células fetais, que permanecem na circulação materna após o parto por longos períodos, o ADN fetal livre é rapidamente eliminado após o nascimento do bebé (Lo YM et al, 1997), condição essencial para garantir o rigor de um teste pré-natal, uma vez que garante que o material analisado não provém de gravidezes anteriores.
O desenvolvimento de novas tecnologias de quantificação e análise do ADN fetal livre no sangue materno abriu novas perspectivas de diagnóstico no campo da medicina pré-natal (Norbury G & Norbury CJ, 2008, Abdel-Fattah S, 2006). Actualmente é possível a determinação do sexo fetal para investigação de fetos com elevado risco de desenvolvimento de doenças como a hiperplasia congénita da supra-renal ou doenças hereditárias ligadas ao cromossoma X (Zolotukhina TV et al, 2005, Chiu RWK et al, 2002a, Costa JM et al, 2002, Lo YM et al, 1998). Por outro lado, também é possível pesquisar doenças genéticas herdadas por via paterna através da análise da presença de alelos mutados no plasma materno. Uma outra aplicação decorrente da análise do ADN fetal no sangue materno é a determinação do grupo RhD fetal em gestantes RhD negativas para a prevenção da doença hemolítica do recém-nascido (Finning K et al, 2008, Daniels G et al, 2007, Finning K et al, 2004). E finalmente, esta tecnologia possibilitará diagnosticar, através de um método não-invasivo, aneuploidias frequentes, como a trissomia 21, trissomia 13 e trissomia 18, o que configura outras aplicações clínicas de elevado interesse, utilizando tecnologias de análise do ADN fetal a partir do sangue materno (Farina A et al, 2003, Zhong XY et al, 2000, Hahn S et al, 2008, Lo YM et al, 2007).